sexta-feira, 25 de abril de 2008

Como esta história começou...



12/04/08



"Chegará o dia em que os homens conhecerão o íntimo dos animais,
e, neste dia, um crime contra um animal
será considerado um crime contra a humanidade..."


Leonardo da Vinci (1452-1519)







Era a colónia mais ostracizada dos quintais das traseiras do meu prédio, desde que lhes destruíram o telhado do quintal, onde outrora haviam sido protegidos.

Ainda assim, a natureza continuava a seguir o seu ritmo…
E muitos filhotes iam nascendo, crescendo, brincando e tentando sobreviver conforme podiam.

Nas últimas semanas, quando me viam, de manhã, a dar comida ao Misha e ao Mikado, duas gatinhas tigradas empoleiravam-se no muro da minha vizinha de baixo, a miar desesperadas com fome.
Atirava-lhes alguns biscoitos de ração seca, e ali ficavam de focinho no chão a petiscar. Pareciam pequenos ratos magricelas, apesar da Dª. L. também os alimentar no seu quintal.

Desde 4ª feira passada, deixei de os ouvir a miarem de manhã, por debaixo das janelas da Dª. L. Os estores desta encontravam-se fechados desde então. E apenas na 6ª feira à noite vi um dos tigrados mais pequenos a deambular pelo quintal sobranceiro ao da Dª. L.

Esta manhã, informaram-me que a “senhora aleijada”, que mora no R/c ao lado do da Dª. L., tinha chamado os funcionários do Canil/Gatil Municipal de Lisboa para irem recolher os animais.
Vieram em duas fase, segundo me contou a minha vizinha de baixo, e ainda faltaria apanhar um dos gatos (o tal que eu vira na 6ª feira à noite). Colocaram armadilhas com comida no quintal, para os apanharem.
E a Dª. L., não aguentando assistir da sua janela ao triste espectáculo de ver os animais enjaulados a chorarem atirando-se contra as grades para tentarem fugir, partira para casa do seu irmão.

Relembro agora, com muita tristeza, a última vez que falei com a Dª. L., no fim-de-semana passado, e lhe perguntei se não haveria possibilidade de tentarmos esterilizar aquela colónia; tendo me ela respondido que aqueles gatos não se deixavam apanhar...
E a Dª. L. a falar-me do gatinho preto anão, a quem até dera um nome, e queria tentar adoptar, apesar da sua cadela não gostar lá muito de felinos...
E as duas gatinhas tigradas que, empoleiradas no muro do quintal da vizinha de baixo, me começaram a miar todas as manhãs, pedindo comida com um olhar entristecido...

Era a colónia mais ostracizada dos quintais das traseiras do meu prédio...
7 gatos que se tornaram um "incómodo" para alguém que, precisamente, pelo estado em que se encontra deveria ser mais tolerante para com os seres vivos que não se podem defender. Alguém que lhes destruiu o telheiro onde sempre viveram... e que, agora, lhes quis dar a estocada final.

Lamentável que o Homem ainda não tenha aprendido nada com o íntimo dos animais...
Pois saberia, então, que ele próprio é o único ser vivo neste planeta que consegue atraiçoar e fazer mal a outrém com plena consciência racional dos seus actos (o que é terrível, só de pensar que alguém consegue viver de consciência tranquila após ter enviado seres vivos para uma morte certa)!




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